OLHOS.
QUASE perco as vistas e nem me dei conta, não senti. Duas conjuntivites
seguidas e um sinal nos olhos em uma fotografia para carteira de
motorista me levaram ao oftalmologista; a principio tudo normal. mas ele
pede um exame da retina. aí recebo o diagnóstico de que estava
prestes a ter um descolamento de retina. coisa grave. não perco tempo,
dou inicio ao tratamento:uma cirurgia a laser.
disparos de laser nos olhos abertos, lacrimejando, fisgadas, tontura...
pergunto ao médico se ninguém nunca desmaiou no consultório dele. ele
responde que quase e acrescenta que as mulheres são mais resistentes a
este tipo de tratamento e as vezes também adolescentes. a última sessão
foi ontem, a mais dura. enquanto as outras foi uma intervenção em cada
olho por sessão, esta foi nos dois. era para ser apenas revisão, mas o
médico disse que a outra parte do olho estava com rachaduras e tinha que
intervir logo, right now! e lá se foi, cerca de duzentos disparos em
cada olho! um suplício, mas que chegou ao fim. naquele momento eu não
tinha noção de como abri os olhos: era luz, escuridão e lágrimas. e a
voz do médico: "você teve sorte, senão teria de passar por uma cirurgia
complicadíssima e deficitária, nosso time ganhou, está tratado." alivio e
muitos pensamentos. um sentido, a visão. como seria minha vida sem ela?
como digitar um texto, fazer um pagamento num banco, ir a um
restaurante, sentar com alguém e não olha-la? como escolher uma roupa,
como contar o dinheiro na carteira... como desenhar? Passei o resto da
tarde com os olhos fechados, apenas entreabrindo-os as vezes para me
localizar. um dado momento meu filhinho comia melancia e eu entreabri os
olhos para vê-lo e ele disse "papai, você está abrindo os olhos papai, você está feliz". Sim filho, estou feliz em vê-lo, respondi. depois
voltei às minhas reflexões: o que ver daqui para frente? ah, os sintomas
de descolamento de retina é ver pontinhos pretos as vezes.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
domingo, 10 de outubro de 2010
ENTRE TERRITÓRIOS desenho-livro
Entre 20 e 25 de setembro, 2010, participei do XIX Encontro da Anpap - Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas na cidade de Cachoeira - de São Félix - no Recôncavo Baiano. No dia da viagem, saí de casa cedo, peguei um bloco de folhas de desenho e comecei ali a trabalhar uma ideia, a de desenhar todo o percurso da viagem. A qualidade do encontro e emoção vivida nesses dias de viagem envolvidos na observação e no desenho, são alguns traços desse registro que ora apresento.segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Aula de Desenho e a cidade
Quando se fala
em ensino de desenho, pensa se logo em sala de aula, ambiente adequado,
confortável, algo como uma atividade relaxada, que se faz quando se tem
vontade, mas é preciso saber é que tudo depende de investimento, inclusive da
vontade, senão o desenho não acontece. Estudar desenho e ouso dizer qualquer
matéria não se completa se não vai à rua, à cidade, ao trânsito para sentir o
urbano com toda sua problemática e também com toda sua riqueza de imagens.
Porque o desenho tem muitos lados se, de um lado ele é íntimo, do outro é
público, vale dizer, o trabalho retorna à cidade.
Sair da segurança da sala de aula para desenhar na rua, no confronto com transeuntes, faz parte do aprendizado do desenho que tento ministrar na UFES, seja para alunos calouros, seja para veteranos. Além disso, acrescento outro dado: desenhar e escrever, desenhar e perceber os próprios pensamentos, descrever elementos dos processos, do devaneio criativo; não com um propósito intelectual, mas algo da ordem da poesia, da livre associação e da percepção. Ver, sentir o lugar onde se está perceber todo o momento presente, desde a própria respiração, à temperatura ambiente, os odores, a sonoridade, a tensão da cidade.
Com este pensamento combinei com duas turmas irmos desenhar no centro da cidade, 8:00h. da manhã, em frente ao teatro Carlos Gomes, Praça Costa Pereira. A minha intenção inicial era que cada um fizesse um desenho e um texto descrevendo uma situação vivenciada ali, que cada uma estabelecesse um contato com o local. Mas estava nublado, formando chuva, então dei outra orientação: andarem pela cidade e fazerem entre dois a sete desenhos, conforme a habilidade, e percepção e interesse de cada um. Levei também meu bloco de desenho com intenção de desenhar. Mas ao invés disso, com alguns alunos segui à caça de um templo japonês que disseram haver ali perto. Andamos, subimos ladeiras para descobrir que não se tratava de um templo, mas de uma casa antiga, com traços de um castelo (inclusive é chamada assim), pertencente a uma família de libaneses, a qual é dona da rede de supermercados São José, do centro de convenções e mais não sabe quantas propriedades no município. Diferente da vista de baixo da avenida de onde se via uma torre, da rua de cima, aonde chegamos, a casa praticamente desaparecia atrás de um muro alto. Conseguimos convencer o caseiro a nos deixar entrar, e lá dentro assistimos um espetáculo de ruína: paredes com inúmeras camadas de tintas se descascando, portas e janelas estouradas, fiação emaranhada, parecendo trepadeira, teto desabando - tanto que não nos foi permitido entrar nas salas e quartos - solo esburacado, etc. Um quadro impiedoso da ação do tempo e do abandono. Perguntou-se porque o dono não cuidava daquela casa. O porteiro repetiu a frase do patrão: “pra que investir numa coisa que não dar retorno?” Resmungo geral de indignação. Alguns deram ideia de se fazer ali, um restaurante de luxo, outro de um espaço cultural, eu pensei numa livraria ou num atelier.
Depois continuamos a caminhada morro acima. Escadas e escadas e lá em cima uma bela vista da cidade: a Bahia de Vitória lá embaixo, navios sendo carregados e prédios enormes com suas janelas retangulares parecendo telas de televisão, algumas delas deixando ver o movimento dos moradores. Um dado momento descobri um homem debruçado em uma janela. Que estaria ele fazendo ali? Pensei que estivesse se suicidando. Sorrimos dessa ideia absurda, no entanto possível. Mas porque me veio aquele pensamento ali? Lembrei-me que no dia anterior, conversando com um amigo ele me disse já ter visto dois suicídios quando estudava no Rio. Fiquei com isso na cabeça e também me lembrei que em um país europeu, acho que Suíça, eles têm uma clinica onde podem se suicidar. Isso mesmo, os que querem por fim à vida, vão lá preenchem os protocolos, declaram que querem morrer, acertam todas as coisas necessárias e morrem lá... sem criar transtornos, acidentes, etc. Para quem quiser saber mais, creio que o nome da clinica é Dignitas. Nesta altura da conversa, descobrimos que o sujeito insistentemente inclinado na janela, estava colocando uma antena parabólica na parede (detalhe, foto embaixo).
Continuamos nossa caminhada, alguns se sentaram para desenhar no mirante, outros subiram ainda mais o morro. Conversamos com moradores, chupamos picolé e desenhamos, desenhamos mais com os olhos, do que com lápis, no final o tempo ficou curto.
Sair da segurança da sala de aula para desenhar na rua, no confronto com transeuntes, faz parte do aprendizado do desenho que tento ministrar na UFES, seja para alunos calouros, seja para veteranos. Além disso, acrescento outro dado: desenhar e escrever, desenhar e perceber os próprios pensamentos, descrever elementos dos processos, do devaneio criativo; não com um propósito intelectual, mas algo da ordem da poesia, da livre associação e da percepção. Ver, sentir o lugar onde se está perceber todo o momento presente, desde a própria respiração, à temperatura ambiente, os odores, a sonoridade, a tensão da cidade.
Com este pensamento combinei com duas turmas irmos desenhar no centro da cidade, 8:00h. da manhã, em frente ao teatro Carlos Gomes, Praça Costa Pereira. A minha intenção inicial era que cada um fizesse um desenho e um texto descrevendo uma situação vivenciada ali, que cada uma estabelecesse um contato com o local. Mas estava nublado, formando chuva, então dei outra orientação: andarem pela cidade e fazerem entre dois a sete desenhos, conforme a habilidade, e percepção e interesse de cada um. Levei também meu bloco de desenho com intenção de desenhar. Mas ao invés disso, com alguns alunos segui à caça de um templo japonês que disseram haver ali perto. Andamos, subimos ladeiras para descobrir que não se tratava de um templo, mas de uma casa antiga, com traços de um castelo (inclusive é chamada assim), pertencente a uma família de libaneses, a qual é dona da rede de supermercados São José, do centro de convenções e mais não sabe quantas propriedades no município. Diferente da vista de baixo da avenida de onde se via uma torre, da rua de cima, aonde chegamos, a casa praticamente desaparecia atrás de um muro alto. Conseguimos convencer o caseiro a nos deixar entrar, e lá dentro assistimos um espetáculo de ruína: paredes com inúmeras camadas de tintas se descascando, portas e janelas estouradas, fiação emaranhada, parecendo trepadeira, teto desabando - tanto que não nos foi permitido entrar nas salas e quartos - solo esburacado, etc. Um quadro impiedoso da ação do tempo e do abandono. Perguntou-se porque o dono não cuidava daquela casa. O porteiro repetiu a frase do patrão: “pra que investir numa coisa que não dar retorno?” Resmungo geral de indignação. Alguns deram ideia de se fazer ali, um restaurante de luxo, outro de um espaço cultural, eu pensei numa livraria ou num atelier.
Depois continuamos a caminhada morro acima. Escadas e escadas e lá em cima uma bela vista da cidade: a Bahia de Vitória lá embaixo, navios sendo carregados e prédios enormes com suas janelas retangulares parecendo telas de televisão, algumas delas deixando ver o movimento dos moradores. Um dado momento descobri um homem debruçado em uma janela. Que estaria ele fazendo ali? Pensei que estivesse se suicidando. Sorrimos dessa ideia absurda, no entanto possível. Mas porque me veio aquele pensamento ali? Lembrei-me que no dia anterior, conversando com um amigo ele me disse já ter visto dois suicídios quando estudava no Rio. Fiquei com isso na cabeça e também me lembrei que em um país europeu, acho que Suíça, eles têm uma clinica onde podem se suicidar. Isso mesmo, os que querem por fim à vida, vão lá preenchem os protocolos, declaram que querem morrer, acertam todas as coisas necessárias e morrem lá... sem criar transtornos, acidentes, etc. Para quem quiser saber mais, creio que o nome da clinica é Dignitas. Nesta altura da conversa, descobrimos que o sujeito insistentemente inclinado na janela, estava colocando uma antena parabólica na parede (detalhe, foto embaixo).
Continuamos nossa caminhada, alguns se sentaram para desenhar no mirante, outros subiram ainda mais o morro. Conversamos com moradores, chupamos picolé e desenhamos, desenhamos mais com os olhos, do que com lápis, no final o tempo ficou curto.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Curitiba. De uma boa viagem, trazemos imagens, palavras e afetos

Curitiba. De uma boa viagem, trazemos imagens, palavras e afetos. O encontro com uma galerista competente e amiga, Tuca/Galeria Ybakatu, o prazer de expor novamente neste espaço e receber tantos convidados. O contato com o fotógrafo Orlando Azevedo e um presente dele: um livro com suas de fotografias. O encontro com os pintores Dulce Ozinsky, Ricardo Carneiro e os filhos: Ângelo e Pedro ao calor da lareira, sopa de beterraba (receita polonesa), desenhos na tablet e discussão sobre um projeto de exposição coletiva, a se chamar – possivelemente – de “A Pintura e as coisas”. Bate-papo com alunos do curso de artes da UFPR no projeto encontro “Artista na Universidade, coordenado por Tânia Bloomfield. A descoberta do bonito site de arte, levado à frente por jovens estudantes - profissionais de arte e de comunicação (que indico a todos): o http://www.percevejo.art.br/ e o convite de Maurício para realizarmos uma entrevista no terminal Guadalupe, centrão da cidade. E lá travamos uma boa conversa sobre fotografia e o ato fotográfico. O passeio pelas ruas com boas calçadas de Curitiba, uma cidade onde se pode caminhar sem carros estacionados nas calçadas e respirar o espaço da cidade. E algumas fotografias para não dizer que não “falei” de imagens de ônibus urbanos.
Silvia a exposição foi boa e muito bem visitada, creio que que as imagens panorâmicas desses lugares tão comuns na cidade acabaram por tirá-los do lugar comum. Obrigado pelo poema, me fale da oficina e da sua expo. Mauricio, o site de voces é muito bom, continue. Vamos trocar figurinhas. Espero a gravação da entrevista e da apresentação.
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